quinta-feira, 1 de junho de 2017

Dica de leitura: “OLIVEIRAS BLUES”, de Akira Yamasaki (Constructo de Alba Atróz – 17 de maio de 2017)


A voz “enletrada” de Akira Yamasaki, sem usar “hexâmetros dactílicos”, ou qualquer rebuscada métrica parnasiana, ecoou em minha alma nesta tarde – bebi suas lágrimas, senti seus lamentos, contemplei por meus pelos eriçados enquanto estava lendo. “Oliveiras Blues” é, em parte, memórias de um Getsêmai onde o poeta se retirou, buscou refúgio e, através de sua escrita, procurou afastar os seus “cale-se” advindos de traumas e revoltas de sua infância e de vida. Quando não a autobiografia de quem foi convivendo entre os bichos soltos, na vizinhança que escuta latidos de cachorros e tiros, compartilhando causos hilariantes com a gente, instigando-nos a adentrar em becos mal iluminados, clareados por seu norte, enquanto ainda estamos gargalhando, a verificar contextos e nuances profundas na fala do “Eu lírico”. Suas raízes estão fincadas na terra que ele adotou e tornou-o forte como um Anteu em contato com seu chão. Porém, ao contrário do mito grego, Akira não permanece estático, ranca-se da terra herdada sem que com isso perca força alguma; emerge de tal atitude seu poder de voar, metamorfoseado em bem-te-vis, por diversos “jardins”, sobretudo o primoroso de “hideko”, tornando-se, como bem alcunhou o também poeta e amigo João Caetano do Nascimento, “o suburbano pássaro da esperança”, sob o olhar lacrimoso da guardiã que o “observa enquanto sorve o chá fumegante”, levando suas lembranças e reminiscências ao lado dos seus singelos passarinhos e borboletas multicoloridas, equilibrando-se, “pairando entre as flores, por sobre antenas e fios do Itaim”, pra depois voltar a se fixar num lugarzinho pregresso no meio do progresso desregrado, na militância, na resistência da “Casa Amarela”, sorrindo com seus convidados, reforçando-se do que lhe é intrínseco em sua humilde pessoa que se transfigura em alta poesia.
Em seu “último distrito”, em “blue noites” periféricas, na musicalidade presente também num rico cd, composto em parceria com virtuosíssimos companheiros artistas, pelos becos do Pantanal, pelas ruas vazias como botecos às moscas, o poeta atravessa os córregos em digressões, além de Três Pontes, com baixos e guitarras, bateria e sopros, lamentando em versos o que fizeram com seus rios, com a natureza que ali existia antes. O poeta cobra, denuncia, chama-nos a atenção sobre o descaso, mas não nos deprime. Leva-nos até as divisas populosas, onde os amigos o circundam com literatura e artes, entre uma birita e outra, durante uma partida de baralho, numa pelada ou bate papo, declamando sua sensibilidade que se aflora e, tocado, de si sai virtudes, mesmo diante dos “fluxos de sangue” que escorrem pelos becos e vielas de seu amoroso e contrastado bairro. O inusitado surge de quando em quando em “oliveiras blues”, a gratidão vulnerável presente na relação com o bandido “dedo mole”, respeito e receios se misturam, no espaço da padaria “rainha do oliveiras” que o bandido, em mangas de camisa da seleção e boné do Neimar, divide com Akira junto ao balcão, pá, uma maria mole, pá, pedida pelo algoz e ao mesmo tempo vítima de amarras que o poeta busca desvelar-nos em sua requintada obra. Yamasaki vai gestuando, acenando-nos, apresentando-nos fielmente lugares emblemáticos, seus amigos artistas de alto potencial, referências de São Miguel e adjacências, como, por exemplo, o Arcanjo Sacha, o carismático seu parceiro Edvaldo Santana, num saudosismo de Raberuam que transcendeu dos limites terrenos, no companheirismo de Sueli Kimura, no apoio de Escobar Franelas, Luka Magalhães, Rosinha Morais, Enide Santos, João Caetano do Nascimento, Manogon, Mário Neves, Milton Luna, Henrique Vitorino e tantos outros sujeitos não menos importantes - eu, quanto resenhista, é que falho por não me lembrar aqui os nomes queridos -, que o alicerçam e bebem do seu sorriso e interpretam sua obra, mostrando-nos também no teatro a adaptação, dando-nos a personalização num constructo artístico emocionante, na dramaturgia, escancarando o peito e mostrando-nos as entranhas, o caráter de um "Clóvis", personagem impactante, julgado pelo ponto de vista dos disse me disse. Como alguém pode acabar sozinho, ele e sua mãe em seu velório menosprezado.
A obra é muito mais do que eu disse aqui, sei que fui limitado demais. Contudo, em diversas cenas, nas lembranças de conflitos com seu pai, dilacerando melancias, na relação com seus entes queridos que se foram de nossos limites ou que estão pertos ou distantes dele, nas notícias de partidas dos bandidos de vulgos engraçados, característicos da marginalidade, apelidos herdados em diversas situações, carregando as sucatas de Tiziu, sentindo o amor por Miyuki enquanto observa o cachorro a salivar diante de sua televisão que transmite frangos assados girando diante de seus olhos tristes a espera de pelo menos lamber o caldo que respinga da máquina da padaria; enquanto vai comendo uma coxinha e bebendo uma cachacinha no “bar do Osvaldinho”, na “viajem de Carvalho Júnior”, anunciando como quer seu Epitáfio, vislumbrado com o preço do tomate, bêbado num carrinho de pedreiro, traduzido por imagens do desenhista Punky, Akira voa livre, combinando o ontem e o hoje, entre anedotas e denúncias, tempos que mendigam debaixo dos viadutos de nossas memórias resistentes, aquecidos por mantas cinza, fruto de doação de nossos bairros explorados, herdeiros da mentirosa “Lei áurea” que aguça nossas revoltas só apaziguadas pelos abraços de nossos familiares e verdadeiros amigos, compadres e comadres, num lar aconchegante pintado de amarelo que, de coração, sempre procurou acolher a todos sob os solos harmônicos de “Oliveiras Blues”. Boa leitura.


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